Um texto.
A minha avó acordou-me.
Essa mulher que é agora velha e de ar frágil como o dia que lhe adoça os contornos de linhas ainda direitas. Uma menina que se ri para o dia, sempre, mesmo depois de tantas vezes a vida não lhe ter sorrido nem de dia nem de noite.
Ela é hoje alegre e as memórias de «quando era rapariga» são tão naturais como as palavras só dela, que usa, que se lhe colaram às coisas que vê e que sente. Palavras que nunca mais ouviu dizer e que não consegue deixar de dizer, como o sabor de certas ervas apanhadas com as suas mãos, ervas fritas com azeite e ovo ou sem eles, como os almoços e jantares de pão com uvas e pão com figos secos, que levava nos bolsos para almoçar no campo de sol impiedoso.
E eu, com o espanto que se agarrou a mim quando nasci, recebo essa beleza toda que me enche a vida das planícies onde ela amou, que me foram crescendo por dentro como canções gigantes cheias de significados que não se podem dizer.
A minha avó acordou-me ontem. As duas na cidade. Abriu as cortinas e sorriu feliz. O tempo estava nublado, no pico de Agosto e eu estranhei.
Ela disse: «Branduras de Agosto...».
Eu perguntei, incrédula, já à espera assim de algo bem dela e do seu Sul:
«- O quê?»
«-São estas manhãs lindas» - disse ela. São Branduras de Agosto, esta névoa clara e fresca. Tempo de amadurarem os figos...
A minha avó chama-se Daniela. Tem oitenta anos e é uma menina. Sabe muito sobre a Natureza e sobre a beleza das coisas simples.
Ontem, acordámos as duas na cidade. Cheias de "campo" ou espaço dentro de nós.
«Branduras de Agosto...»
F.
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